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O risco e a importância dos antibióticos

Escrito por Redação - Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010 - 20:29
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LUCIANO PALUMBO
do PACIENTES ONLINE

Foi mais ou menos desta maneira -  devido a um lapso de memória – que pode ser descrita, a descoberta da penicilina em 1928, pelo bacteriologista inglês Alexander Fleming. O cientista trabalhava no Hospital St. Mary, na Inglaterra, onde observava o comportamento de uma cultura de Staphylococcus aureus, a temível bactéria que causa infecção generalizada.

Um dia, Fleming saiu de férias e esqueceu, no laboratório, uma de suas placas de cultura, com amostras do estafilococo. Ao voltar, ele notou que o mofo parecia ter produzido uma substância que conseguira atacar a bactéria. Logo, concluiu que essa mesma substância poderia ser utilizada para impedir o desenvolvimento de outras bactérias. Como o fungo chamava-se Penicillium notatum, Fleming batizou a tal substância de penicilina.

Alexander Fleming inaugurou uma nova era dentro da medicina: a dos antibióticos. Graças a ele, milhões de soldados feridos durante a Segunda Guerra Mundial foram salvos. O termo antibiótico vem do grego e significa: "contra a vida". A dos micro-organismos, diga-se de passagem. Hoje, alguns especialistas já refutam o termo e preferem “antimicrobianos” a "antibiótico".

“Em resumo, os antibióticos obedecem a uma relação de custo x benefício. São medicamentos da maior importância, pois colaboram decisivamente para reduzir o sofrimento humano causado pelas infecções, reduzem o risco de transmissão de uma infecção de uma pessoa para outra, curam infecções graves e, consequentemente, reduzem brutalmente a mortalidade causada por tais infecções”, diz o infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Helio Vasconcelos Lopes.

Os antibióticos se dividem em duas classes: sistêmicos - precisam atingir a corrente sanguínea para exercer o efeito desejado. Podem ser administrados por via oral, intramuscular, intravenosa e aerossol – e, os de uso tópico - aplicados diretamente na pele ou mucosas, principalmente em infecções dermatológicas.

Campeões de venda

Astro (Eurofarma): infecções no trato respiratório superior (sinusite, laringite e otite média) e inferior (bronquite e pneumonia), na pele e em DSTs (clamídia e gonorreia)
Amoxicilina (Medley): infecções nos pulmões (bronquite e pneumonia), nos seios da face (sinusite), nas amídalas (amidalite), no trato urinário e genital, pele e mucosas
Amoxicilina + Clavulanato de Potássio (EMS): infecções no trato respiratório superior e inferior, no trato geniturinário (cistite), na pele e em tecidos moles
Amoxicilina (EMS): infecções nos pulmões, nos seios da face, nas amídalas, no trato urinário e genital, pele e mucosas.
Cefalexina (Medley): infecções no trato respiratório, na pele e nos tecidos moles e no trato geniturinário
Fibrase Cloranfenicol (Pfizer): infecções de pele
Iruxol (Abbott): infecções de pele
Nebacetin (Nycomed): infecções de pele
Rifocina (sanofi-aventis): infecções de pele
Sulfato de Neomicina + Bacitracina (Medley): infecções de pele

No ano 2009, a venda de antibióticos no País movimentou R$ 1,6 bilhão, segundo relatório do IMS Health. Atualmente, os antibióticos só podem ser vendidos com receita médica, mas, na prática, isso não é respeitado. Segundo pesquisa do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, 68% das farmácias do Estado admitem já ter vendido antibióticos sem receita médica.

Devido a este fato, a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) propõe a inclusão dos antibióticos na lista dos medicamentos de uso controlado. Com a medida, a sistemática será igual à já adotada para o controle dos psicotrópicos. Além de exigir a apresentação da receita no ato da compra, as farmácias serão obrigadas a recolher dados da prescrição do remédio e, também, a notificar a venda do antibiótico ao Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).

Usados inadequada ou indiscriminadamente, podem causar reações adversas, algumas vezes graves e podem modificar a flora normal do organismo, levando à seleção de micro-organismos resistentes que, se causarem uma infecção futura, a medicina atual terá dificuldades maiores de enfrentá-la, trazendo como consequência um maior risco de gravidade, aqui se incluindo a morte.

Em entrevista ao PACIENTES ONLINE, o especialista da SBI adverte sobre a questão do consumo indiscriminado e sobre as diferenças com os anti-inflamatórios. Além disso, Lopes ressalta as questões de resistência microbiana e como utilizar corretamente este tipo de medicamento.

PACIENTES ONLINE - Em quais casos devem ser administrados os antibióticos?
Hélio Vasconcelos Lopes - Antibióticos devem ser prescritos por médicos, após terem examinado o paciente, terem realizado exames laboratoriais e de imagem (quando necessários) e terem chegado ao diagnóstico de uma determinada infecção que deva ser tratada com estes medicamentos.

POL - O que é resistência microbiana e quais as suas causas?
HVL - Resistência microbiana é a forma pela qual os agentes causadores de infecção aprenderam a sobreviver ao contato com antibióticos. Estes micro-organismos desenvolveram mecanismos que tornam o antibiótico ineficaz, ou seja, impedem ou neutralizam a ação da droga.

POL – Porque o uso indiscriminado compromete o sistema imunológico?
HVL - Antibiótico atua no organismo com o objetivo de matar os agentes causadores de infecção; seu uso indiscriminado pode estimular o desenvolvimento de resistência microbiana. Desse modo, futuras infecções poderão ser causadas por micro-organismos resistentes aos antibióticos trazendo, como consequência, a vitória da infecção sobre a droga; sendo a infecção potencialmente grave, o resultado poderá ser catastrófico.

POL - Quais as diferenças entre antibióticos e anti-inflamatórios?
HVL - Antibióticos atuam contra os micro-organismos causadores de infecções. Anti-inflamatórios atuam contra a inflamação presente na infecção, aqui se incluindo a febre. No entanto, se o antibiótico é eficaz, ele também vai desenvolver esse papel porque, destruindo o agente causador da infecção, ele vai fazer a inflamação regredir. O uso de anti-inflamatório nas infecções é habitualmente desnecessário, dispendioso e potencialmente causador de efeitos colaterais, com destaque para os digestivos, tais como náusea, vômito e dores abdominais.

POL - Como utilizar de maneira segura o medicamento?
HVL - Obedecendo a prescrição, a receita médica. A esta obediência dá-se o nome de adesão: tomar o antibiótico nos intervalos indicados, durante o tempo recomendado. Evidentemente os antibióticos – como qualquer outro medicamento – não estão isentos de efeitos adversos; quando presentes e significativos, devem ser levados ao conhecimento do médico.

POL - A ingestão de bebida alcoólica corta o efeito do medicamento? Pode existir uma potencialização?
HVL - Bebida alcoólica e infecção não combinam. Um indivíduo com infecção não está  em momento física e emocionalmente propício para a ingestão de álcool. A bebida alcoólica pode se justificar no encontro descontraído com amigos, em eventos, em festas, em comemorações; enfim, em situações para as quais o indivíduo doente não está habilitado. Acrescente-se que o álcool pode exercer uma ação prejudicial ao efeito do antibiótico.

POL - Existem novas pesquisas de antibióticos em desenvolvimento?
HVL - Sim, os laboratórios farmacêuticos maiores, os multinacionais, têm uma área de pesquisa onde são descobertas novas drogas, com novas formas de agir e com maior potência contra os micro-organismos e que têm, como objetivo principal vencer a resistência atual destes agentes. Infelizmente a descoberta de um novo antibiótico resulta em custos de centenas de milhões de dólares. A consequência é que as pesquisas estão diminuindo em quantidade e o custo destes novos antibióticos vai se tornando astronômico. 

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