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Mesmo com novas indicações terapêuticas, câncer de mama continua perigoso, diz especialista

28/07/2010 - 17:20

O Oncologista, Sergio Simon

LUCIANO PALUMBO
do PACIENTES ONLINE

Atualmente, no Brasil, as drogas orais para o tratamento do câncer estão no centro de um grande debate entre médicos, indústria, operadoras de saúde e pacientes. Especialistas acreditam que, independente do custo, a entrada da quimioterapia oral e o pagamento dos medicamentos orais (como o lapatinibe) serão reais em um futuro próximo, por se tratar de uma evolução natural do sistema de saúde suplementar.

Hoje, a terapia oral é mais que uma realidade, é qualidade existencial de melhoria no resultado do tratamento e nos efeitos colaterais. Ela representa cerca de 40% dos medicamentos para o tratamento de câncer. A grande questão é que a maioria dos pacientes não tem acesso porque os planos de saúde não são obrigados a custear esse tipo de droga.

Para o oncologista Sergio Simon, do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente do Grupo Brasileiro de Estudos Clínicos em Câncer de Mama (GBECAM), atualmente é possível otimizar o tratamento do câncer HER2 e investir em novas terapias, como as orais.

Pensando nessa evolução do tratamento de câncer de mama, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) -  concedeu ainda este mês a alteração na autorização condicional de comercialização do lapatinibe no Brasil, para uma nova indicação terapêutica. Agora, o  lapatinibe – combinado com o letrozol [inibidor da aromatase (AI)] já pode ser usado no tratamento de mulheres pós-menopáusicas com câncer de mama metastático com superexpressão de HER2 (ErbB2), positivo para o receptor hormonal (HR+), e para as quais a quimioterapia pode não estar prevista.

A nova indicação desafia a opção de tratamento até então utilizada, quando o lapatinibe — que é uma terapia alvo-dirigida oral —, deveria ser, obrigatoriamente, combinado com a capecitabina, um tipo de quimioterápico também oral.

O especialista afirma que a “superexpressão de HER2 em pacientes com câncer de mama com receptores hormonais positivos confere uma resistência endócrina relativa ao câncer que pode dificultar o controle da doença”. O resultado do estudo Fase III (EGF30008) que levou à nova indicação de comercialização do lapatinibe envolveu mais de 1.200 mulheres pós-menopáusicas com câncer de mama metastático. Esse ensaio randomizado avaliou o lapatinibe em combinação com o letrozol em mulheres com câncer de mama metastático HER2 positivo ou negativo e receptor hormonal positivo (HR+). O letrozol é uma terapia reconhecida no tratamento de câncer de mama HR+. O objetivo primário desse estudo foi avaliar a sobrevida livre de progressão da doença.

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) mais que 25 milhões de mulheres no mundo serão diagnosticadas com câncer de mama nos próximos 25 anos e mais de dez milhões podem morrer nesse período. A cada ano são disgnosticados 1,3 milhão de novos casos de câncer de mama no mundo. Na população brasileira, esse é o tipo de câncer mais incidente, correspondendo a três em cada dez casos de câncer diagnosticados entre as mulheres. Para 2010, são previstos 49 mil novos casos.

“No Brasil, 25% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres com menos de 40 anos”, diz o oncologista.  “Quanto mais tarde se dá o diagnostico, mais difícil se torna o controle da doença”, emenda.

Com aprovação deste 2007, o lapatinibe é uma pequena molécula inibidora dos receptores do tipo tirosina quinase EGFR e HER2. O estímulo do EGFR e HER2 está associado com a proliferação celular e com processos múltiplos envolvidos na progressão tumoral e metástases.  Em combinação com a capecitabina, é indicado para o tratamento de pacientes com câncer de mama avançado ou metastático cujos tumores superexpressam HER2. As pacientes devem ter doença progressiva após terapia anterior com trastuzumabe no contexto metastático. Como tratamento oral, o lapatinibe dá às pacientes a liberdade de passar preciosos meses extras com os amigos e a família sem as amarras restritivas das internações hospitalares.

A nova aprovação da Anvisa autoriza o seu uso junto com um inibidor da aromatase em pacientes com câncer de mama metastático superexpressando HER2 (ErbB2) e positivo para o receptor hormonal em todo o Brasil. A combinação de lapatinibe e um inibidor da aromatase também foi aprovada nos Estados Unidos em fevereiro de 2010 e, em seguida, nos 27 estados membros da União Europeia.

Em entrevista ao PACIENTES ONLINE, Simon afirma que o Brasil necessita de estudo com mulheres brasileiras e diz que os órgãos reguladores emperram as pesquisas e o desenvolvimento do País.

PACIENTES ONLINE - É possível detectar o câncer com autoexame?
Sergio Simon - Não. Na verdade quando palpável o tumor já mede cerca de um centímetro, no mínimo, podendo chegar até quatro centímetros. Normalmente, recomenda-se o exame de mamografia para uma detecção não palpável -  lesões que nem o médico, nem o paciente conseguem detectar – quando isso ocorre, as chances de cura são muito altas podendo chegar a quase 90% dos casos. Indica-se a mamografia – para pacientes que não possuem histórico de casos na família – a partir dos 40 anos.  Atualmente, por uma questão de legislação e financeira, o Ministério da Saúde sugere que o exame seja feito a partir dos 50 anos.

POL – Segundo pesquisa do Inca, 50% dos casos de câncer de mama levarão mulheres à morte em 2010. Qual a realidade destas novas indicações terapêuticas?
SS – Estes tratamentos já existem no mercado - no Brasil desde 2007 – e trata especificamente de um tipo de câncer muito agressivo, o HER2+. Porém, o grande problema que nós médicos enfrentamos no tratamento deste tipo de câncer está diretamente ligado a falta de cobertura pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que não dispõe deste tipo de molécula. Isso dificulta e muito o trabalho dos médicos – e muitas vezes – impede o avanço do tratamento. Em pacientes que possuem um poder aquisitivo maior ou mesmo um seguro de saúde, as chances de tratamento e as alternativas são muitos maiores. Temos hoje no país duas classes de tratamento para este tipo de câncer: aqueles que têm condições e pagam e aqueles que ficam sem o medicamento por questões financeiras. Ou vira uma questão de juducialização.

POL – Qual a representatividade dos tumores do tipo HER2+ no País? Existe alguma relação hormonal para o surgimento da doença?
SS – Atualmente, este tipo de câncer corresponde a 20% dos casos de câncer de mama no Brasil. Esse número se torna bem significativo quando temos uma estimativa de quase 20 mil casos no ano. Porém, não podemos relacionar todos os tipos de cânceres às questões hormonais. Quando falamos de HER2+, cerca de 50% podem ser decorrentes de problemas ocasionados por hormonais, como por exemplo, as questões que envolvem a menopausa para as mulheres.

POL – Qual a principal causa do câncer de mama?
SS – As causas estão divididas entre estilo de vida, gravidez, lactação e menopausa. Os fatores genéticos estão entre os 5% e 15% dos casos. Na verdade, quando mais gestão menor o risco de desenvolver o câncer de mama. Outro fator que inibe o câncer de mama está ligado a menstruação, quanto menos se menstrua, menor é o risco. Hoje, por questões até nutricionais, as mulheres menstruam ainda meninas -  temos casos de menstruação com nove anos – e vão até mais de 65 anos. Na época de nossos avós as menstruações ocorriam com 14 anos e seguiam até os 45 anos, por isso a incidência era menor.

POL – Geralmente o Brasil apresenta números relacionados ao aumento da doença, quando falamos de P&D, como anda o Brasil?
SS – Muito ruim. Estamos em um processo regulatório de pesquisa e desenvolvimento no País extremamente longo. Posso dizer que hoje a Conep e a Anvisa são verdadeiros gargalos para o desenvolvimento desta área no País. Atualmente, a liberação dos estudos no Brasil varia com certa demora de nove a 12 meses, quando na Europa esse prazo chega no Maximo a três meses. Frequentemente quando somos liberados para participar de um estudo ele já está sendo finalizado em outra parte do mundo. Estamos sempre na rebeira dos estudos pelo mundo.  A pesquisa clinica no país ainda é muito pequena. Isso se torna ruim para o Brasil porque não temos dados destes tratamentos em mulheres brasileiras, daí entramos num dilema: será que os resultados são os mesmos em mulheres da Europa e do Brasil. Nós estamos preparando um estudo com mulheres brasileiras que ficará pronto daqui quatro aos, daí teremos uma precisão melhor sobre os tratamentos executados no Brasil.

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